Dr. Gabriel Lóis explica por que a obesidade deve ser tratada como uma doença crônica e não como falta de força de vontade

Durante décadas, a obesidade foi associada à falta de disciplina e de autocontrole. Essa percepção, ainda presente em parte da sociedade, contribuiu para o preconceito e atrasou a compreensão de uma condição que hoje é reconhecida pela ciência como uma doença crônica, complexa e multifatorial.

Segundo o endocrinologista Dr. Gabriel Lóis, os avanços da medicina transformaram completamente a forma de entender o excesso de peso. Atualmente, sabe-se que fatores genéticos, hormonais, metabólicos, ambientais, comportamentais e sociais participam diretamente do desenvolvimento da obesidade, tornando o tratamento muito mais amplo do que simplesmente reduzir calorias.

“O organismo possui mecanismos biológicos que dificultam a manutenção da perda de peso. Após o emagrecimento, ocorre aumento da fome, redução do gasto energético e alterações hormonais que favorecem a recuperação do peso. Isso explica por que tantas pessoas enfrentam dificuldade para manter os resultados, mesmo seguindo hábitos saudáveis”, afirma.

Essa compreensão também ajuda a explicar por que a obesidade deve ser acompanhada de forma contínua, assim como acontece com doenças como hipertensão arterial e diabetes. O objetivo não é apenas promover perda de peso, mas construir um tratamento capaz de preservar os resultados ao longo da vida.

Nos últimos anos, a chegada de medicamentos como Ozempic®️, Wegovy®️ e Mounjaro®️ mudou o cenário da endocrinologia e abriu novas possibilidades para pacientes com indicação clínica. Para o especialista, trata-se de uma das maiores revoluções no tratamento da obesidade, mas que exige responsabilidade na prescrição.

“O problema começa quando esses medicamentos passam a ser vistos como soluções estéticas ou fórmulas rápidas para emagrecer. Eles representam uma ferramenta extremamente eficaz, mas fazem parte de um plano terapêutico que precisa incluir acompanhamento médico, alimentação adequada, atividade física e avaliação individualizada.”

Outro tema que ganhou espaço nas consultas médicas é a preservação da massa muscular durante o emagrecimento. Embora toda perda de peso envolva alguma redução de massa magra, o especialista destaca que o foco não deve estar apenas nos números apresentados pelos exames de composição corporal.

Ele explica que a redução da gordura infiltrada dentro do músculo, conhecida como mioesteatose, pode gerar a impressão de diminuição da massa muscular, quando, na realidade, o paciente apresenta melhora da força e da funcionalidade. Por isso, a interpretação clínica deve ir além dos resultados isolados.

Para preservar a musculatura durante o tratamento, recomenda-se ingestão adequada de proteínas, treinamento de força, prática regular de atividade física e velocidade de emagrecimento compatível com as características de cada paciente.

Em meio ao crescimento de conteúdos sobre emagrecimento nas redes sociais, Dr. Gabriel Lóis alerta para a necessidade de distinguir ciência de marketing. Segundo ele, recomendações baseadas apenas em relatos pessoais ou promessas de resultados rápidos devem ser vistas com cautela.

“A medicina trabalha com evidências científicas. Não basta um método funcionar para uma pessoa. É preciso comprovar eficácia, segurança e reprodutibilidade na maioria dos pacientes.”

Outro assunto frequentemente associado ao emagrecimento é a reposição hormonal. Apesar da popularidade do tema, o endocrinologista reforça que hormônios não devem ser utilizados como estratégia para perda de peso.

A reposição possui indicações específicas, como casos de deficiência hormonal comprovada, hipogonadismo masculino ou determinadas situações relacionadas à menopausa. Fora dessas condições, seu uso pode expor o paciente a riscos sem oferecer benefícios consistentes para o controle da obesidade.

A tendência da endocrinologia, segundo o especialista, é abandonar protocolos padronizados e investir cada vez mais em tratamentos personalizados. Idade, composição corporal, doenças associadas, comportamento alimentar, qualidade do sono, saúde mental, rotina e resposta individual aos medicamentos fazem parte da construção de uma estratégia terapêutica eficiente.

Além da redução do peso corporal, diversos indicadores ajudam a avaliar o sucesso do tratamento. Melhor controle da pressão arterial, glicemia, colesterol, triglicerídeos, redução da gordura no fígado, melhora da apneia do sono, aumento da capacidade funcional e da disposição para as atividades diárias refletem ganhos importantes para a saúde.

Dr. Gabriel Lóis também alerta para os riscos da automedicação. Os medicamentos utilizados no tratamento da obesidade possuem indicações e contraindicações específicas, e seu uso inadequado pode provocar efeitos adversos, perda excessiva de massa muscular, interrupção precoce do tratamento e frustração com expectativas irreais.

Ao final, o endocrinologista destaca que um dos maiores desafios ainda é combater o estigma que acompanha a obesidade.

“A ideia de que pessoas com obesidade não emagrecem porque lhes falta força de vontade é um dos maiores mitos da medicina. Quando entendemos que se trata de uma doença crônica, substituímos o julgamento pelo cuidado. O paciente deixa de carregar culpa e passa a receber um tratamento baseado em ciência, individualização e acompanhamento contínuo.”

Mais do que promover perda de peso, a medicina moderna busca oferecer qualidade de vida, prevenção de doenças e resultados sustentáveis. Nesse novo cenário, compreender a obesidade como uma condição crônica representa um dos passos mais importantes para transformar a forma como pacientes e profissionais enfrentam um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade.

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